segunda-feira, 31 de maio de 2010

Memórias-3:Setembro 1985

Era um tempo...

"Quando cantas nos cabarés
fazendo brilhar o marfim da tua boca
é a África que está chegando!"

in "A ilha de Nome Santo", Francisco José Tenreiro, S. Tomé.


Um dia acordámos com a urgência da partida.
De outros países que não o nosso, sabíamos o percurso repetido e monótono das mochilas e boleias.
Tínhamos feito, em tempo certo, a romagem nocturna da cidade. Lisboa era um poço sem fundo onde caíamos, todos os dias, ao anoitecer.
Era o tempo de Herberto e de Oom, velho feiticeiro de outros sóis; de Durell e Alexandria - ó Justine dos nossos desejos!-; de Kafka e de angústias emparedadas; de Lowry; de Musil; e da loucura obscena de Fellini.
Por cá, confinava-se o espaço ao trajecto de um dia, media-se o tempo ao ritmo dos segundos; angustiava-se, serenamente, o quotidiano dos gestos.
Tínhamos então vinte anos e jamais conceberamos cidades maiores do que Paris.
Mas, os mais ousados, murmuravam já sinais perigosos de outras paragens.
Amílcar: "teu nome era pão, tua sombra era tecto"; Neto: "cheguei para ver a ressurreição da semente"; Mário António: "pega numa flor d' acácia para a pores no meu cabelo indómito de fera"; António Jacinto:"negro da cor do contratado".
Depois, violentamente, chegaram as imagens.
Imagens de um outro continente. Vibrantes imagens de vermelhos, laranjas e azuis. Terríficas imagens de guerra e de ódio. Belas imagens do nosso desespero.
Com elas chegou a velha culpabilidade adormecida: os nossos sonhos passaram a ser povoados de cavalos e serpentes, abismos e montanhas, molhes de escuridão arremessados à proa de navios. Tornámo-nos "davidson" de portos mediterrânicos, lutadores perdidos em parte incerta. Remexemos as entranhas da História e transformámos em bandidos os heróis dos nossos pais. Oprimidos, negros, marginais, passaram a ser o motor, o eixo, da nossa imaginação.
Procurávamos, desesperadamente, expiar séculos de escravos e grilhetas, de fome e de contratos.
E assim, plácidos missionários de outras ideologias, partíamos em bandos proféticos, para redimir todas as culpas.
Tão vergados de peso desembarcávamos, que nem ouvimos o som remoto das confusas línguas que nos rodeavam; que nem bebemos o cheiro acre da terra molhada, quando, em Agosto, as chuvas levantam lufadas de poeira e de calor; que nem vivemos a plena nudez dos nossos corpos, finalmente libertos do pecado original.
Ironicamente, repetimos a História.
Aqui, e cada vez mais, continuamos a ser o medo que nos toca quando o sono se abate sobre os nossos cabelos.
Aqui, e cada vez mais, continuamos a ser deste rio que carrega o mar fundo das nossas ansiedades e desilusões.
Será só nossa esta fatalidade de o Tejo ser sempre um rio de partida?

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