segunda-feira, 24 de maio de 2010

Memórias -1: Julho 1985

Houve um tempo em que eu escrevia. Escrevia muito. Escrevia por prazer e, sobretudo, por amor. Alguém me disse que a palavra escrita mantém a perenidade da memória e que jamais deveria deixar de escrever. O cansaço, vai--nos minando, e os nossos desejos vão-se transformando em miragens cada vez mais inacessíveis e longínquas.
Houve um tempo em que eu escrevi para um jornal. Chamava-se "África Jornal". O seu director, Leston Bandeira, fez dele um grande jornal, veículo fundamental entre o norte e o sul, entre Portugal e África. Morreu, como morre tudo o que neste país pretende ser inovador, polémico, diferente e incómodo. Passaram-se vinte e cinco anos.
Talvez que ao dar corpo a alguns desses textos, os recupere e me recupere na memória do tempo e do espaço.
17/7/85
E de repente...
"e então pensei:
este ferreiro aqui a trabalhar o ferro,
senta-se assim numa pedrita baixa e tem
dois foles mesmo à sua frente, sai-lhe
das pernas em canal comprido, maneja
as varas para empurrar o vento, o ar
circula pelo tubo adentro e vai verter-se
na fornalha acesa,
esis um ferreiro entregue ao seu labor,
eis uma coisa antiga, sim senhor." in Rui Duarte, "sinais misteriosos...já se vê...", p. 13, ed. 70.
E de repente assume-se o corpo. Fonte de equívocos, dirpersão de gestos, memória de desejos. O nosso corpo tão vasto e tão simples, poço de fraquezas e de ansiedades, espaço sagrado do nascer do dia, presumível fonte da nossa castidade.
Lá, na mãe-África, todas estas memórias recuadas ressoam ao medo do vazio, ao mistério castrador dos nossos avós. Avós que são diferentes de todos os avós da nossa infância. Encontram-se ao fim da tarde, sentados calmamente nos passeios, fumando o seu cachimbo de liamba. Dizem-nos coisas terríveis como seja do sentimento do tempo simples, com gestos ritmados e serenos, olhando para um espaço vazio de emoção.
E então, de repente, cai o dia.
A noite invade-nos, sem receio. Apanhados desprevenidos, hesitamos. Envoltos ficamos em torno da fogueira, nesse calor ancestral que nos persegue, mito expurgatório e medo dos antepassados, sombra de todos nós, estigma de inúmeros pesadelos.
África! Partimos para ti, desconcertados. Inquisidores de nós mesmos, descemos ao início do medo mais profundo, que se funde com o sonho mais sublime.
A terra espalha-se aos nossos pés.
É vermelha de tanto sangue e árida de tanta indiferença. Agora, muitos anos passados, redimimos a nossa passiva memória, correndo para ti à procura de outra terra prometida.
Terra prometida já não existe. Foi-se no tempo dos cedros, quando o Líbano era um mar de areias e de mel.
Deste outro lado, só o ferreiro malha o ferro com a tristeza que o habita e a escuridão que o envolve.
Artesanais, mantemos os mitos da juventude e da velhice como fonte de ignorância e de sabedoria, agora que perdidos somos nas profundezas de tanta civilização industrial.
Olha-se o sol, pergunta-se as estrelas, teme-se os fogos de santelmo, reencontra-se a dimensão real de novos espaços.
Medo do percurso galopante, ou medo do eterno e irreversível retorno?

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