quarta-feira, 26 de maio de 2010

Memórias -2: Agosto 1985

Nos limites proibidos das cidades

"... Ora o que nós devemos é regozijar-nos pelo facto de a nossa carne ainda poder dialogar com o sol, e de podermos mover as nossas pernas como o cavalo selvagem..." in "O Papalagui...", ed. Antígona, pp.24-25, Lx. 85.
E eis os que vivem nos limites proibidos da cidade. Vêm de longínquas paragens onde o sol e o mar se confundem na torridez de terras sem fronteiras. Aqui chegados, inventam musseques e tabancas de madeira com a nostalgia do batuque imaginado.
É fácil vê-los ao nascer do dia, ou então quando a tarde cai. Deslocam-se em grupos solitários, carregando a culpa de serem os exilados do medo e da tristeza. Conservam ainda nos olhos, o desejo sumarento das grandes papaeiras e o mistério dos coqueiros por abrir. Carregam nos ombros adormecidos o incrível silêncio dos grandes espaços, o possível momento de outros sóis, a mística esperança de vastas tempestades. Têm nomes próprios que murmuram, clandestinamente, como quem conta histórias ao cair da tarde. Consomem-se nos morros e nos vales e, aos sábados à noite, arrastam o cansaço dos corpos, no terreiro. Cá como lá, mascam goma, inventam ritmos, suam ilusões.
Por vezes, hesitantes, descem à cidade e aconchegam-se, desconfiados, nas suas entranhas.
Aí, para as bandas do rio, onde as margens da margem se confundem, misturam-se com os passageiros clandestinos de outras paragens.
A noite, que de noite é permissiva, agarra-os e rodeia-os nos seus tentáculos. Falam-se então as linguagens paralelas, os dialectos entrecruzados que vêm do quimbundo dos séculos. Reinventam-se bússolas e estrelas polares que transportam sempre os marinheiros a outros portos.
Nada sabem das histórias da nossa infância, mas retomam, ingenuamente, o mistério universal da criação do mundo.
Então, quando o dia nasce, recolhem sorrateiros às franjas do pesadelo.
Incógnitos, repetem o quotidiano dos gestos, o peso monótono da pá e da lancheira, o cheiro proibido dos detritos da cidade.
Têm, no entanto, nomes próprios que murmuram clandestinamente como quem conta histórias ao cair da tarde.

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