Escrita há três anos, quando um avião da EgyptAir, que deixou o aeroporto Charles de Gaulle (Paris) em direcção ao Cairo, no Egipto caiu e desapareceu, no dia 19 de Maio de 2016.. Uma parte da minha vida tem sido passada em viagens. Eu, que que tenho um medo visceral de andar de avião, suportei (e ainda suporto), toda a espécie de sintomas fisiológicos de cada vez que se avizinhava (avizinha) uma partida ou uma chegada. De todas, a viagem ao Egipto foi das que mais me marcou. Foi em 2008, na EgypthAir. Ainda tinha os cabelos claros e o meu corpo suportava o impacto das marés. Lembrei-me hoje dela, por via da tragédia. Mais uma, menos uma e, um dia destes, damos por nós calcinados, indiferentes, acomodados pelas rotinas trágicas do quotidiano. Os nossos olhos, o nosso corpo, o nosso espírito banalizam, dia após dia, a fúria, a raiva, a dor. E somos nós, inteiros, ou em pedaços que procuramos o medo com medo de o perder.
Porque há noites que são dias e tão só neblinas efervescentes no torpor das manhãs esquecidas.
Guiné-Bissau, 1980-81, na Jangada de Varela em contra-luz à janela.
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