domingo, 24 de novembro de 2019

Em dia de eleições na improvável Guiné-Bissau.
"O Tempo, esse grande escultor!"
E já passaram 39 anos. Novembro de 1980.Guiné-Bissau. Hotel 24 de Setembro.
Acabadinha de aterrar na Guiné-Bissau, em pleno golpe militar que depôs o Presidente Luís Cabral e iniciou o consulado nepótico de Nino Vieira.
"Ca tinha luz, ca tinha água, ca tinha ...
Com mancarra e 10 pesos de camarão ia fazendo a festa.
Mas foi o meu feliz "temps des cerises".
E já agora, Manuel Brito e Amélia Brito, tragam-me 20 pesos de mancarra, assim como se fosse alecrim.😊
A imagem pode conter: Maria Freire, ar livre e closeup

Escrita há três anos, quando um avião da EgyptAir, que deixou o aeroporto Charles de Gaulle (Paris) em direcção ao Cairo, no Egipto caiu e desapareceu, no dia 19 de Maio de 2016.. Uma parte da minha vida tem sido passada em viagens. Eu, que que tenho um medo visceral de andar de avião, suportei (e ainda suporto), toda a espécie de sintomas fisiológicos de cada vez que se avizinhava (avizinha) uma partida ou uma chegada. De todas, a viagem ao Egipto foi das que mais me marcou. Foi em 2008, na EgypthAir. Ainda tinha os cabelos claros e o meu corpo suportava o impacto das marés. Lembrei-me hoje dela, por via da tragédia. Mais uma, menos uma e, um dia destes, damos por nós calcinados, indiferentes, acomodados pelas rotinas trágicas do quotidiano. Os nossos olhos, o nosso corpo, o nosso espírito banalizam, dia após dia, a fúria, a raiva, a dor. E somos nós, inteiros, ou em pedaços que procuramos o medo com medo de o perder.

Porque há noites que são dias e tão só neblinas efervescentes no torpor das manhãs esquecidas.
Guiné-Bissau, 1980-81, na Jangada de Varela em contra-luz à janela.
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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Para cantar ao meu neto, Zé, quando ele nascer. E falar-lhe-ei de ti, companheiro. 19/11/2019. José Mário Branco.

Quando eu for grande quero ser Um bichinho pequenino P'ra me poder aquecer Na mão de qualquer menino Quando eu for grande quero ser Mais pequeno que uma noz P'ra tudo o que eu sou caber Na mão de qualquer de vós Quando eu for grande quero ser Uma laje de granito Tudo em mim se pode erguer Quando me pisam não grito Quando eu for grande quero ser Uma pedra do asfalto O que lá estou a fazer Só se nota quando falto Quando eu for grande quero ser Ponte de uma a outra margem Para unir sem escolher E servir só de passagem Quando eu for grande quero ser Como o rio dessa ponte Nunca parar de correr Sem nunca esquecer a fonte Quando eu for grande quero ser Um bichinho pequenino Quando eu for grande quero ser Mais pequeno que uma noz Quando eu for grande quero ser Uma laje de granito Quando eu for grande quero ser Uma pedra do asfalto Quando eu for grande... Quando eu for grande... Quando eu for grande quero ter O tamanho que não tenho P'ra nunca deixar de ser Do meu exacto tamanho

https://youtu.be/PhmI2Vl4AiY

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer... ZMB maior que a música

José Mário Branco foi muito mais do que cantor de intervenção. É inquestionavelmente um homem com uma cultura musical abrangente, o melhor arranjador de Música Popular, compositor de novos fados singular, como provam os trabalhos discográficos com a sua mão, ouvidos e sensibilidade para Camané. Por Soraia Simões de Andrade.
José Mário Branco (JMB) teve a sua primeira infância numa aldeia de pescadores, perto do Porto, que «hoje é uma cidade grande, que é Leça da Palmeira», dizia-me num dos nossos primeiros encontros em sua casa, parte do seu conteúdo ficou disponível uns meses mais tarde na Mural Sonoro1.
Entre 2011 e 2013, JMB não cedia praticamente entrevistas, foi por intermédio de amigos em comum que a consegui fazer em sua casa. Sem que esperasse revelou-se o início de uma amizade/consideração mútuos: trocas frequentes de emails, sugestões de leituras, entre outros.
«Agora toda a gente quer falar comigo, olha os jornalistas é porque lá vem a Troika e fiz uma cantiga chamada FMI, não tenho nada para dizer, muitos deles nem nunca ouviram o FMI», «(...) já não vou para cima de um palco cantar com um lírio e um canivete (...) fiz aquelas canções porque estava a viver aquilo (...) o FMI é uma catarse», este seu desconforto em 2012, que se foi dissipando nos últimos anos da sua existência, ficou-me gravado até hoje.
Lembro que no nosso primeiro encontro falámos de teatro, da Comuna, da Manuela de Freitas (sua companheira, que mais tarde convidei para um outro debate sob o tema literaturas para fado2), dos filhos e dos netos, da neta cabo-verdiana ainda pequena, mostrou fotografias, mostrei-lhe também de um dos meus sobrinhos, cabo-verdiano, a viver em Santiago, do entusiasmo que o filme Mudar de Vida (parto longo, veio à luz após um crowdfunding) lhe estava a originar, «tens de ver isto!», aconselhava-me.
Foram essas longas horas, registadas na memória até à sua partida hoje, que me ajudaram a perceber o homem que tinha na minha frente, o qual já admirava.
Desde 2012 que fomos trocando várias mensagens: sobre música e sobre política, esteve presente no ciclo de debates que organizei no Museu Nacional da Música3, enviava-me artigos que achava que poderiam ser interessantes para eu ler, sobre Alan Lomax, sobre o Benelux nos anos sessenta e setenta, sobre música dodecafónica e música concrecta, muitas ideias acerca daquele que tinha como seu mestre, Luís Monteiro, crucial na sua aprendizagem da etnomusicologia. Um dia liguei-lhe a dizer que ia ao Porto conhecer Luís Monteiro, o seu professor, que ele ainda era vivo, ficou emocionado. Fizemos um texto de homenagem a Luís Monteiro, de quem ele entretanto tinha perdido o rasto até à minha ida ao norte, escrito a vários mãos: as do José Mário, da Ana Deus (vizinha do Luís Monteiro, que proporcionou esta minha visita), do Jorge Constante Pereira.
A última vez que falei presencialmente com JMB no Galetto, Avenidas Novas, um encontro imprevisto há cerca de um ano, perguntou-me: «tens tido notícias do Luís Monteiro? Está velho, tenho de o visitar». Não sei se o chegou a fazer. Mas, lembro que ficou radioso desde o momento em que soube que o “seu mestre” ainda era vivo e lhe pudemos prestar a homenagem numas breves linhas4 publicadas na Mural Sonoro.
José Mário Branco com Soraia Simões de Andrade
José Mário Branco com Soraia Simões de Andrade
O JMB era um defensor da liberdade. Julgo que a sua força crescia quanto maior era o interesse pelos assuntos e pelas pessoas. Sinto-me uma privilegiada por o ter conhecido e privado consigo.
O pai de JMB era um amante de música, tinha feito o curso do seminário e ensinava-o, a ele e aos dois irmãos, a cantar a vozes. Fazia os baixos e eles as outras três vozes.
JMB estudou piano em Leça da Palmeira e tinha uma paixão grande pelo violino. Como os pais, professores primários, não tinham possibilidades, foram os padrinhos, pessoas abastadas da cidade do Porto, que lhe compraram o violino e lhe pagaram aulas no Conservatório. O professor, um francês, primeiro violino da Sinfónica do Porto, liderava também o Quarteto de Cordas, mas deu-lhe cabo da paixão pelo violino em poucos meses.
JMB ia aos sábados de manhã, quando não havia liceu, ao Conservatório ter aulas particulares de violino e «a única coisa que ele me ensinava era a pegar no violino e no arco com proibição de produzir qualquer som, e eu ficava ali uma hora de pé numa sala, com o professor à minha frente, a puxar-me pelo cotovelo e a corrigir-me os dedos no arco, pousar o arco nas cordas, mas proibido de tocar, primeiro ano era só para aprender a pegar no violino e isso matou definitivamente a paixão que eu tinha pelo violino, foi um assassinato».
Depois destes percalços, a música ficou de lado e iniciou uma paixão grande pela poesia, que é retomada quando abre a Escola Parnaso no Porto, já JMB tinha dezasseis anos. Foi aí, com Jorge Constante Pereira, Ricardo Sousa Lima, Nina Constante Pereira, na altura namorada de JMB, que o seu envolvimento político e cultural se intensificam, estas tertúlias intersectavam vários mundos e olhares: da literatura à música popular. O seu contacto com as músicas contemporâneas, a música dodecafónica, a música concrecta, a música electrónica, e com a etnomusicologia, através de Luís Monteiro, traduzir-se-iam em sessões apaixonantes que o vieram mais tarde a moldar como músico e compositor.
Quando chegou a fase em que ia ser defrontado com a Guerra Colonial, havia já uma politização através do exemplo de amigos mais velhos que andavam na universidade, dentro do movimento estudantil universitário, JMB ficou ligado ao primeiro grupo que no Porto tentou formar associações de estudantes nos liceus, de nome Pró Associação. Se nas universidades, do Porto, Coimbra e Lisboa, as associações de estudantes eram toleradas no liceal eram mesmo proibidas.
JMB fazia parte de um grupo de jovens, rapazes e raparigas, por um lado muito sensibilizados para a resistência à ditadura, resistência à censura, por outro lado para uma ligação também desse grupo à poesia e à música no estilo da tertúlia, no contacto com poetas mais velhos, muitos deles/as neo-realistas do Porto, como Brigitte Gonçalves, António Rebordão Navarro, Eugénio de Andrade ou António Reis, que depois se tornou cineasta.
JMB e o grupo de jovens a que pertencia escreviam poemas, participavam no suplemento juvenil do Diário de Lisboa que era orientado por dois escritores, um casal de esquerda, aí publicavam poemas, desenhos, como os de Manuela Bacelar, hoje uma pintora reconhecida, recensões críticas. Este suplemento acabou a ser proibido pela censura e passou a ser publicado no jornal República.
Através de familiares e das dinâmicas intrínsecas à movimentação deste grupo de jovens haviam relações com a Academia de Amadores de Música e o seu coro, dirigido por Fernando Lopes-Graça, com o próprio Lopes-Graça.
Um dos elementos deste grupo de jovens era Margarida Losa, filha de Ilse e de Arménio Losa, JMB assistiu à chegada, em casa de Ilse Losa, de Lopes-Graça com o primeiro disco prova de fábrica da Antologia de Trás-Os-Montes, recolhas de Giacometti seleccionadas por ele. «E o gesto do Graça de colocar o disco prova no toca-discos e da gente ouvir aquilo com as lágrimas nos olhos e pensarmos: como é que é possível nós termos estes tesouros no nosso país e ninguém os conhecer?».
Nas férias da Páscoa, JMB e os/as companheiros/as iam em grupo percorrer as terras do Alto Minho a pé ou, numa segunda fase, iam para o Alentejo, do Porto para o Alentejo, para a aldeia de Peroguarda, no meio do triângulo Beja-Ferreira-Cuba, para os ouvir cantar e falar. Os primeiros a ir foram presos pela PIDE. Era estranho um grupo de jovens no meio dos alentejanos, de repente: «a fazer o quê, para quê?», mas «a gente ia só para os ouvir cantar e falar».
Em 1961, JMB tinha dezanove anos. Estava, como muitos dos outros companheiros, ligado ao Partido Comunista, porque «era a única organização onde a gente podia fazer qualquer coisa a sério correndo todos os riscos inerentes, que no meu caso por exemplo levou à prisão pela PIDE em 1962, não é? A discussão sobre ir ou não ir participar na guerra colonial».
Uma época marcada pelo Concílio Vaticano II, pela Revolução Cubana, pela Guerra na Argélia, assuntos que faziam parte das discussões nestas tertúlias.
Como militante do partido comunista português JMB recebeu a directiva de ir para a guerra, «porque era a linha do partido na altura, achando que era na frente de guerra que o militante comunista poderia fazer o seu trabalho».
Nem JMB nem os restantes acreditavam, ou nada ou muito pouco, que isso fosse possível de acordo com os muitos relatos que vinham dos franceses, da Guerra da Argélia, onde a posição do Partido Comunista francês foi a mesma.
Foram, aliás, as discussões com integrantes do movimento estudantil francês, que ajudaram à sua própria posição, que culminou na recusa em participar na Guerra Colonial.
Depois de ter estado preso pela PIDE em 1962, poucos dias antes de receber o postal de mobilização para a tropa em 1963, JMB aproveitou os dias que lhe restavam de validade de um antigo passaporte para fugir do país. Foram treze anos de vida em Paris. Regressou a trinta de Abril de 1974, cinco dias depois do 25 de Abril, no mesmo avião onde vinham, entre outros, Álvaro Cunhal e Luís Cília.

Vou andando por terras de França
pela viela da esperança
sempre de mudança
tirando o meu salário

Enquanto o fidalgo enche a pança
o Zé Povinho não descansa
Há sempre uma França
Brasil do operário

Não foi por vontade nem por gosto
que deixei a minha terra
Entre a uva e o mosto
fica sempre tudo neste pé

Vamos indo por terras de França
nossa miragem de abastança
sempre de mudança
roendo a nossa grade

Quando vai o gado prà matança
ao cabo da boa-esperança
Bolas prà bonança
e viva a tempestade
Não foi por vontade nem por gosto …

Vamos indo por terras de França
com a pobreza na lembrança
sempre de mudança
com olhos espantados
Canta o galo e a governança
a tesourinha e a finança
e os cães de faiança
ladrando a finados
Não foi por vontade nem por gosto …
Vamos indo por terras de França
trocando a sorte pela chança
sempre de mudança
suando o pé de meia
Com a alocação e a segurança
com sindicato e com vacança
Há sempre uma França
Numa folha de peia
Não foi por vontade nem por gosto…
No início dos anos setenta Paris era a segunda cidade de Portugal, tinha mais habitantes portugueses na região parisiense do que franceses, «só em França, imagina, éramos oitenta mil desertores e refractários para um país de nove/dez milhões de habitantes».
Foi em França que, além de procurar a sobrevivência (chegou a trabalhar numa fábrica de mármores) participou activamente em lutas políticas, em núcleos políticos, cujos objectivos eram ao mesmo tempo a discussão sobre o que fazer em relação a Portugal: luta armada ou não luta armada contra a ditadura portuguesa, «tomar partido pela China ou partido pela União Soviética, e a questão da divulgação e da denúncia da ditadura portuguesa e da guerra colonial pela europa fora».
A emigração portuguesa em França, como na Suíça, na Alemanha, nos países escandinavos ou no Benelux, que até aí fora uma emigração quase exclusivamente da pobreza, como ficou retratado no filme Le Saut de Christian Challonge cuja música é da autoria de Luís Cília (também entrevistado na Mural Sonoro), ou seja uma emigração económica, mudou, com a ida de dezenas de milhares de jovens universitários contra a guerra.
Estes jovens, segundo JMB, começaram a aderir às associações de migrantes em Paris, que até aí serviam só para o rancho folclórico ou para a missa, contribuindo para uma politização de uma boa parte das mesmas.
JMB, Luís Cília e Tino Flores que também viviam em Paris, ou Sérgio Godinho, que começou a viver em Paris a partir de 1967, que interpretavam canções ora que denunciavam a situação em Portugal ora que rasgavam as fronteiras para a comunidade, começaram a dar concertos pela Europa do norte sobretudo, sempre a cantar para associações. O disco de JMB A Ronda do Soldadinho foi um resultado disso mesmo, por ser um disco feito propositadamente na ilegalidade, financiado com pré-compras do movimento associativo.

Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho

Um menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P'ra fazer mal

Menino cresceu
Já foi à escola
De sacola

Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar

Menino cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear

Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não er
Como era
O soldadinho

Como JMB não tinha dinheiro para produzir o fonograma e a canção tinha-se entretanto tornado muito popular dentro da emigração portuguesa, mas também no seio da esquerda francesa, inquiriu: «há este disco para fazer, era importante fazer este disco, vocês acham? E eles disseram ‘achamos’, e eu disse ‘então, quantos exemplares é que querem comprar’? E confiam-me o dinheiro antes de ver os discos ou não’?». Recebeu o dinheiro de compras antecipadas de exemplares do disco e foi com esse dinheiro que o fonograma foi produzido, com uma tiragem reduzida.O seu percurso em França, a paulatina fragmentação das estruturas políticas de extrema-esquerda a partir de 1965, e o facto de um primo da sua mulher se ter esquecido de uma viola no apartamento por onde passou em Paris fizeram com que passasse a ter uma ligação a esse instrumento que anteriormente nem conhecia e com ele começasse a compor muito do repertório deste período. O piano, a flauta de bísel, o acordeão de teclado eram os instrumentos que sabia, até à data, tocar.
Encordoou a viola deixada no apartamento, faltavam-lhe cordas, e de ouvido começou a aprender a acompanhar-se a cantar canções, foi aí que colocou pela primeira vez a hipótese de se poder exprimir através deste meio, o da música, e deste instrumento.
JMB foi ao longo da sua trajectória bastante crítico relativamente a terminologias como «movimento dos baladeiros» ou «canção de intervenção», considerava-as pejorativas e redutoras. Isto porque já gostava de outras tipologias de canções como a canção poética francesa, canções brasileiras, canções anglo-saxónicas. Ambas, porque, em boa medida, estiveram associadas sobretudo «a uma grande pobreza musical das canções. Eram aquelas pessoas que se faziam acompanhar de uma viola, sabiam dois ou três acordes, que faziam tudo igual e muitas das vezes contra a própria mensagem da poesia. Exclude disto completamente o Zeca Afonso, porque o Zeca Afonso era um caso absolutamente à parte, e que continua a ser, de grande riqueza poética e musical e sobretudo interpretativa, mas o que veio na esteira do Zeca foi esse ''movimento dos baladeiros'' que até leva depois o Raul Solnado a fazer um sketch a ridicularizá-los, não é? Mas, há excepções. A ‘Pedra Filosofal’ do Manuel Freire é uma cantiga que foi uma viragem histórica pelas circunstâncias em que foi conhecida e que tem, digamos, qualidade poética e musical».
Seria, no entanto, a forte influência francesa, de uma música engagée, adjectivo aplicado às canções poéticas francesas do pós-guerra, que JMB começou por se fazer ouvir, mas nas canções ‘’comprometidas com realidades sociais” que lhe foram primeiramente referenciais estiveram também nesta fase canções brasileiras como as de Dorival Caymmi, ou aquelas que existiram fruto de um ressurgimento da canção política italiana, um país onde houve guerra e houve bastante resistência, e do contexto anglo-saxónico.
Depois de Abril de 1974, quando regressou a Portugal, fundou o Grupo de Acção Cultural Vozes na Luta (GAC), com o qual ainda gravaria uma primeira série de singles e Eps, depois reunidos no LP A Cantiga é uma Arma, JMB participaria no disco posterior Pois Canté!, o melhor disco, quanto a mim, do GAC.
Em Paris no ano anterior ao 25 de Abril já estava em gestação um grupo cuja ideia era fazer «música proibida, música ilegal, música de resistência, música subterrânea. Eu tinha tido uma cooperativa em que participei com amigos franceses chamada Organum já mais experiências de auto-edição de coisas marginais, completamente marginais, e que eram financiadas fora do sistema», o GAC esteve portanto muitos anos antes do seu surgimento em gestação.
O Grupo de Acção Cultural, como começou por se definir primeiramente, acabou dividido mais ou menos em função das diferenças políticas que haviam na esquerda portuguesa. Uns do PCP, outros LUAR. No primeiro GAC, definido como de extrema-esquerda maoísta, estiveram JMB, Fausto, Tino Flores, na altura os jovens que vieram do Coro da Juventude Musical e do Instituto Gregoriano, alguns mais tarde integrariam o grupo Gaiteiros de Lisboa, como Rui Vaz, Carlos Guerreiro ou Pedro Casaes. Para JMB foram especialmente pessoas como Luís Pedro Faro que vieram a dar uma maior solidez artística aquele grupo de ''pós-baladeiros''.
Ser SolidárioMargem de Certa ManeiraA Noite e o emblemático FMI, a entrada para a Comuna em 1977/78, para fazer A Mãe que também daria origem a um LP, as cisões da Comuna no fim de Janeiro de 1979, que levaram José Mário Branco e Manuela de Freitas a formarem um novo grupo de nome Teatro do Mundo, onde produziu uma série de canções que surtiriam no projecto «Ser Solidário», curiosamente recusado por todas as editoras, «foi recusado por todas as editoras, na maioria dos casos por eu querer incluir o FMI, ficaram todos assustados, o Tozé Brito por exemplo respondeu-me por escrito que já lá tinham um Sérgio Godinho na Polygram e que era a mesma coisa. Mas, foi recusado por todas as editoras. Valentim de Carvalho, Polygram, a que depois se chamou Sony, todas», firmaram JMB como um autor de referência não só sob o ponto de vista musical como cultural e social.
O grupo Teatro do Mundo levou à cena o concerto «Ser Solidário», uma vez mais JMB convidou o público a pré-financiar a existência do disco. Foi assim que o disco foi feito. A etiqueta comercial (Edisom) é efectivamente posterior, editora de Zé da Ponte e de Guilherme Inês que aceitaram editá-lo fazendo ao lado um maxi-single do «FMI», já com tudo pago e gravado. Em 1980 e 1981 os concertos estavam esgotados.
É inegável que JMB conseguiu uma almofada de público «para este tipo de canções, que está muito a cavalo entre esse fenómeno de que tu falas digamos que da marginalidade de certos cantores, e depois o outro fenómeno que é uma coisa muito forte que ficou do PREC, que é: a identificação política, não é?», mas JMB foi muito mais do que este período da canção, foi/é/será para mim inquestionavelmente um homem com uma cultura musical abrangente, o melhor arranjador de Música Popular, um compositor de ‘’novos fados’’ singular, como o provam, entre outros, os trabalhos discográficos com a sua mão, os seus ouvidos, a sua sensibilidade para Camané. Deixou-nos um dos autores mais interessantes dos séculos vinte e vinte e um, no seu percurso cabem todos os textos e homenagens.
Obrigada Zé Mário!

Notas:
1 História oral Mural Sonoro, entrevista a José Mário Branco: www.muralsonoro.com(link is external).
2 Novas literaturas para Fado com José Luís Gordo e Manuela de Freitas, Muralha Alfama, ciclo Conversas à volta da Guitarra portuguesa, org: Soraia Simões de Andrade: www.muralsonoro.com(link is external).
3 Música e Sociedade, Museu Nacional da Música, org Soraia Simões de Andrade: www.muralsonoro.com(link is external).
4 «Por falar em Luís Monteiro»: www.muralsonoro.com(link is external).

Sobre o/a autor(a)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Hoje é o dia da Sophia. Da nossa Sophia, a do "dia inicial inteiro e limpo", fundida com o mar, navegante de um Abril na rua. "A minha vida é o mar e Abril a rua". Mas igualmente a Sophia dum outro Sul, onde "o sol cai a direito e há sítios onde o até o chão é caiado". A Sophia das ânforas de barro, pitonisa de Creta, esbatida entre a penumbra e o sol, entre o corpo de "Orfeu dilacerado pelas fúrias" e um "reino de praias verdes, no azul suspenso da noite, na pureza da cal, na pequena pedra polida, no perfume do óregão".
Esta é a Sophia do nosso desassossego, que nos acoita na serenidade pálida do amanhecer.

excertos da "Geografia", poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen.
(Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)
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sábado, 2 de novembro de 2019

Ruy Guerra escreveu esta carta maior há 5 anos numa lúcida antevisão do ovo que expeliria o horror e o medo.
Cinco anos passados, os ovos germinaram e lançaram as serpentes de morte.
"O OVO DA SERPENTE
RUY GUERRA
"Um filme de Ingmar Bergman – belíssimo. Aqui, nesta crônica, a mesma metáfora.
Gosto de metáforas ou eu não gostasse de palavras, que são metáforas mortas, segundo Jorge Luiz Borges.
Há 30 anos escrevi uma crônica sobre o golpe de 1964.
Naquele momento nunca imaginei que voltaria a tocar no assunto tantos anos depois, porque pensei que as instituições militares já teriam se redimido desse momento sujo de sua história com um pedido de desculpas à nação.
Pensava, ingênuo, que essa mancha indelével na história das Forças Armadas brasileiras iria ficar circunscrita aos compêndios de História e sair, ainda que dolorosa e lentamente, da corrente sanguínea do cotidiano da nação.
Engano crasso.
Isso não foi feito, antes pelo contrário.
A serpente deixou e choca os seus ovos.
São vozes orgulhosas, arrogantes, provocadoras, insidiosas, nostálgicas, que teimam em insistir que o golpe que se eternizou por duas décadas foi um momento glorioso da História do Brasil: são as vozes fardadas de militares, personagens desse negro período, que buscam anular o passado negando, de pés juntos, o que já corre à luz do dia; são vozes fardadas dos militares que vieram depois e que por “esprit de corp” ou por obediência hierárquica,se refugiam no silêncio; são as vozes civis dos que ganharam poder e que se locupletaram nesse longo período de desbragada corrupção, que cochicham ou louvam em alto e bom som.
Todos unidos, cúmplices na tentativa de desmentir o estigma marcado a ferro no corpo e na alma do povo brasileiro durante duas décadas de um governo autoritário - e autoritário é aqui um eufemismo.
Duas décadas.
Vinte e um anos, para sermos exatos, de arbitrariedades, ameaças, prisões, censura, torturas, assassinatos, ocultação de corpos das vítimas, dentes arrancados e dedos decepados, atentados e testemunhos falsos, subornos, delações, expurgos, sequestros ... que mais? Falta, mas qualquer brasileiro pode acrescentar outras ignomínias, mais torpezas, desmandos. Um legado de corrupção, ignorância, desigualdade, matraca e mordaça. E um imenso buraco cultural. A castração sistemática do pensamento criador e político de toda uma juventude, e não só. Um fosso que vai levar décadas para ser transposto.
Mas para abordar esse tema seriam necessárias mais de três telas.
Não é preciso ser historiador para entender que o futuro tem suas raízes no passado. Que um homem, mulher ou nação é feito do que foi e do que carrega na memória, individual e coletiva. Que o que passou tem mais força do que o que está para vir, porque tem o poder de pesar no que se desenha no horizonte. Que não é dever, nem imposição mas uma necessidade incontornável não fechar os olhos para a realidade, por mais ingrata que seja, sem se indagar o que ela significa.
O conhecimento do passado é transformador. O silêncio embalsama, nega o movimento, é pá de cal.
Abro um parêntesis:
Às vezes me sinto tentado a ser inconveniente, usar uma palavra mais contundente. Numa conversa falada, em que a velocidade da ideia e da palavra não admitem retrocesso, uso. E raramente me arrependo; a veemência justifica. Exorcizado o ímpeto da palavra que seria falada, paro, para substituí-la por uma mais delicada. Demorei e resolvi escolher um palavrão infantil: burro.
Fecho parêntesis e retomo a escrita.
As Forças Armadas são assim tão burras que não conseguem entender que ninguém mais do que elas têm interesse em se demarcar desse intolerável passado para retomar a sua dignidade profissional e humana, comprometida durante esses anos cruéis? Que quanto mais completo e rápido vierem à tona os fatos, ainda que incômodos, mais cedo pode haver um novo pacto de dignidade e respeito, entre si e entre todos, mediante seu reconhecimento? Que as instituições são dinâmicas e que as Forças Armadas de hoje podem e devem ser críticas em relação a si próprias, assumir o erro e expurgá-lo? Não creio que sejam.
Quem não quer ou não consegue reconhecer uma verdade tão simples não é burro - é perverso.
E perigoso.
Defende valores que devem ser combatidos, extirpados, porque esses valores são a bandeira de uma corja, baioneta e braço erguido, que atenta contra o axioma mais simples e fundamental do ser humano em sua constante caminhada para se civilizar: respeito ao próximo e ao Outro.
A palavra corja é mais do meu discurso falado, mas não a corrijo: sutileza seria omissão. E nessa palavra tanto cabem civis como militares.
Quebrem-se os ovos - enquanto ainda é tempo."
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