quarta-feira, 10 de março de 2021

 Há vozes, há cheiros, há mãos que ultrapassam o fulgor do tempo.

41 anos é o tempo do nada como se fosse amanhã.

Algures na Guiné-Bissau quando tinha garra para andarilhar.
1980.

Djiu di Galinha
Djiu, djiu di Galinha
Djiu di Galinha, ai!
Djiu di Galinha
N'disdjau, ai Djiu di Galinha
Manera ki piskaduris ta pera mare
Asin tambi ki n' ta pera dia di riba
Manera ki labraduris ta tchora tchuba
Asin tambi ki n' ta tchora bu falta.
Djiu, djiu di Galinha
Djiu di Galinha, ai!
Djiu di Galinha
N'disdjau, ai Djiu di Galinha
Djiu di Galinha, ai!
Djiu di Galinha

José Carlos Schwarz. (1973).


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Há 39 anos assisti ao último desfile de Carnaval de que tenho memória. Instalada na velhinha ANOP, virada para a Av. Amílcar Cabral, vi passar a euforia totémica que invadiu as ruas de Bissau, após o negro golpe militar que depôs Luís Cabral.
Claro que nos próximos 39 anos faço questão de não assistir, nem ao vivo, nem a cores, a mais algum.
Resguardo-me da "vã, apagada e vil tristeza".Nenhuma descrição de foto disponível.A imagem pode conter: 1 pessoa
Entre Bissau e Ziguinchor
Corria o mês de Dezembro de 80, lá para as bandas do Futa-Djalon.
Não tinha arroz, nem feijão, mas tinha um namorado e uma mota Yamaha, da qual já nem recordo a cilindrada.
Vivia-se a urgência da partida e o Senegal ficava ali tão perto. E assim, em pleno Natal equatorial, destilados e amolecidos, partimos do 24 de Setembro em Bissau, rumo a São Domingos na fronteira.
Entre as tabancas de Safim e de Bula e os areais e palmares do Cacheu, corríamos para apanhar a jangada, sem horário, que nos levaria a São Domingos.
E, de repente, a noite caiu como só em África sabe cair. Rápida, momentânea, implacável. Corria o tempo do fanado. Entre a escuridão e os gritos dos iniciados para a circuncisão, escondidos entre os palmares, ficava terra de nenhures. A jangada, noite cerrada, já partira ou nem chegara.
Entre o Cacheu e Ignoré, num declive invisível, a mota desgovernou-se, o condutor partiu um pé e a pendura que só sabia conduzir automóveis, ficou-se entre o medo e a estupefacção.
O homem era corajoso e lá conseguimos chegar a São Domingos, famintos, doridos e com a fronteira fechada para entrar no Senegal.
Como nos arrastámos até Ziguinchor já se me esvaiu da memória.
Mas por lá ficámos cinco dias a "entalar" o pé e a "eixar" a mota.
O regresso foi em furgão entre cabras, vasilhas de vinho de cajú e sobas das tabancas.
E foi assim que conheci o Senegal.
Dakar, nem por perto lá ficou.A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas a sorrirNenhuma descrição de foto disponível.A imagem pode conter: 1 pessoa

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Do ano passado para este ano, o ciclo repete-se.
A acabar um livro. De malas feitas para uma nova "partida". À beira rio. À beira Sol. À beira Tempo.
Desabafo perdido na contagem.
Quando se acaba um livro, resta um vazio gélido como se um estilete afiado nos perfurasse o corpo. A orfandade que nos escorre pelos dedos, adensa-se à medida que os anos vão invadindo a penumbra dos dias.
Depois, um novo ciclo recomeça. Parte-se para outra viagem e o corpo enlouquece na insensata busca de um novo desconhecido.
Entre amantes entorpecidos pela escultura do tempo, a perenidade das linhas que escoam pelos sentidos, universaliza o relativo.
A 23 de Fevereiro de 1987, falecia em Setúbal, José Afonso.
Sempre, Zeca.
"Águas das fontes calai
Oliveiras secai
Que eu não volto a cantar"
33 anos, querido Zeca.
Ergue-te ó sol de verão, somos nós os teus cantores.
"Só um pensamento
No momento
P`ra nos despertar"
"Por aquele caminho
De alegria escrava
Vai um caminheiro
Com sol nas espáduas"
Fura-fura, capa de Alberto Lopes.Resultado de imagem para fura fura zeca afonso capa de albertp lopesA imagem pode conter: 1 pessoa, texto que diz "CANTARES JOSÉ AFONSO"A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos de sol e closeup

domingo, 24 de novembro de 2019

Em dia de eleições na improvável Guiné-Bissau.
"O Tempo, esse grande escultor!"
E já passaram 39 anos. Novembro de 1980.Guiné-Bissau. Hotel 24 de Setembro.
Acabadinha de aterrar na Guiné-Bissau, em pleno golpe militar que depôs o Presidente Luís Cabral e iniciou o consulado nepótico de Nino Vieira.
"Ca tinha luz, ca tinha água, ca tinha ...
Com mancarra e 10 pesos de camarão ia fazendo a festa.
Mas foi o meu feliz "temps des cerises".
E já agora, Manuel Brito e Amélia Brito, tragam-me 20 pesos de mancarra, assim como se fosse alecrim.😊
A imagem pode conter: Maria Freire, ar livre e closeup

Escrita há três anos, quando um avião da EgyptAir, que deixou o aeroporto Charles de Gaulle (Paris) em direcção ao Cairo, no Egipto caiu e desapareceu, no dia 19 de Maio de 2016.. Uma parte da minha vida tem sido passada em viagens. Eu, que que tenho um medo visceral de andar de avião, suportei (e ainda suporto), toda a espécie de sintomas fisiológicos de cada vez que se avizinhava (avizinha) uma partida ou uma chegada. De todas, a viagem ao Egipto foi das que mais me marcou. Foi em 2008, na EgypthAir. Ainda tinha os cabelos claros e o meu corpo suportava o impacto das marés. Lembrei-me hoje dela, por via da tragédia. Mais uma, menos uma e, um dia destes, damos por nós calcinados, indiferentes, acomodados pelas rotinas trágicas do quotidiano. Os nossos olhos, o nosso corpo, o nosso espírito banalizam, dia após dia, a fúria, a raiva, a dor. E somos nós, inteiros, ou em pedaços que procuramos o medo com medo de o perder.

Porque há noites que são dias e tão só neblinas efervescentes no torpor das manhãs esquecidas.
Guiné-Bissau, 1980-81, na Jangada de Varela em contra-luz à janela.
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