Entre Bissau e Ziguinchor
Corria o mês de Dezembro de 80, lá para as bandas do Futa-Djalon.
Não tinha arroz, nem feijão, mas tinha um namorado e uma mota Yamaha, da qual já nem recordo a cilindrada.
Vivia-se a urgência da partida e o Senegal ficava ali tão perto. E assim, em pleno Natal equatorial, destilados e amolecidos, partimos do 24 de Setembro em Bissau, rumo a São Domingos na fronteira.
Entre as tabancas de Safim e de Bula e os areais e palmares do Cacheu, corríamos para apanhar a jangada, sem horário, que nos levaria a São Domingos.
E, de repente, a noite caiu como só em África sabe cair. Rápida, momentânea, implacável. Corria o tempo do fanado. Entre a escuridão e os gritos dos iniciados para a circuncisão, escondidos entre os palmares, ficava terra de nenhures. A jangada, noite cerrada, já partira ou nem chegara.
Entre o Cacheu e Ignoré, num declive invisível, a mota desgovernou-se, o condutor partiu um pé e a pendura que só sabia conduzir automóveis, ficou-se entre o medo e a estupefacção.
O homem era corajoso e lá conseguimos chegar a São Domingos, famintos, doridos e com a fronteira fechada para entrar no Senegal.
Como nos arrastámos até Ziguinchor já se me esvaiu da memória.
Mas por lá ficámos cinco dias a "entalar" o pé e a "eixar" a mota.
O regresso foi em furgão entre cabras, vasilhas de vinho de cajú e sobas das tabancas.
E foi assim que conheci o Senegal.
Dakar, nem por perto lá ficou.

