sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Há 39 anos assisti ao último desfile de Carnaval de que tenho memória. Instalada na velhinha ANOP, virada para a Av. Amílcar Cabral, vi passar a euforia totémica que invadiu as ruas de Bissau, após o negro golpe militar que depôs Luís Cabral.
Claro que nos próximos 39 anos faço questão de não assistir, nem ao vivo, nem a cores, a mais algum.
Resguardo-me da "vã, apagada e vil tristeza".Nenhuma descrição de foto disponível.A imagem pode conter: 1 pessoa
Entre Bissau e Ziguinchor
Corria o mês de Dezembro de 80, lá para as bandas do Futa-Djalon.
Não tinha arroz, nem feijão, mas tinha um namorado e uma mota Yamaha, da qual já nem recordo a cilindrada.
Vivia-se a urgência da partida e o Senegal ficava ali tão perto. E assim, em pleno Natal equatorial, destilados e amolecidos, partimos do 24 de Setembro em Bissau, rumo a São Domingos na fronteira.
Entre as tabancas de Safim e de Bula e os areais e palmares do Cacheu, corríamos para apanhar a jangada, sem horário, que nos levaria a São Domingos.
E, de repente, a noite caiu como só em África sabe cair. Rápida, momentânea, implacável. Corria o tempo do fanado. Entre a escuridão e os gritos dos iniciados para a circuncisão, escondidos entre os palmares, ficava terra de nenhures. A jangada, noite cerrada, já partira ou nem chegara.
Entre o Cacheu e Ignoré, num declive invisível, a mota desgovernou-se, o condutor partiu um pé e a pendura que só sabia conduzir automóveis, ficou-se entre o medo e a estupefacção.
O homem era corajoso e lá conseguimos chegar a São Domingos, famintos, doridos e com a fronteira fechada para entrar no Senegal.
Como nos arrastámos até Ziguinchor já se me esvaiu da memória.
Mas por lá ficámos cinco dias a "entalar" o pé e a "eixar" a mota.
O regresso foi em furgão entre cabras, vasilhas de vinho de cajú e sobas das tabancas.
E foi assim que conheci o Senegal.
Dakar, nem por perto lá ficou.A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas a sorrirNenhuma descrição de foto disponível.A imagem pode conter: 1 pessoa

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Do ano passado para este ano, o ciclo repete-se.
A acabar um livro. De malas feitas para uma nova "partida". À beira rio. À beira Sol. À beira Tempo.
Desabafo perdido na contagem.
Quando se acaba um livro, resta um vazio gélido como se um estilete afiado nos perfurasse o corpo. A orfandade que nos escorre pelos dedos, adensa-se à medida que os anos vão invadindo a penumbra dos dias.
Depois, um novo ciclo recomeça. Parte-se para outra viagem e o corpo enlouquece na insensata busca de um novo desconhecido.
Entre amantes entorpecidos pela escultura do tempo, a perenidade das linhas que escoam pelos sentidos, universaliza o relativo.
A 23 de Fevereiro de 1987, falecia em Setúbal, José Afonso.
Sempre, Zeca.
"Águas das fontes calai
Oliveiras secai
Que eu não volto a cantar"
33 anos, querido Zeca.
Ergue-te ó sol de verão, somos nós os teus cantores.
"Só um pensamento
No momento
P`ra nos despertar"
"Por aquele caminho
De alegria escrava
Vai um caminheiro
Com sol nas espáduas"
Fura-fura, capa de Alberto Lopes.Resultado de imagem para fura fura zeca afonso capa de albertp lopesA imagem pode conter: 1 pessoa, texto que diz "CANTARES JOSÉ AFONSO"A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos de sol e closeup