segunda-feira, 13 de março de 2017



Mensagem da ilha distante para um amigo ausente.
"avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da paz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva de um bicho estelar
e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar"
Al Berto, Três Cartas da Memória das Índias".
Quando parti, pediste-me para te trazer, na viagem de regresso, um cheiro a sol, a maresia, a suave brisa do mar.
Meu amigo, vivemos ainda num tempo em que a nossa memória se alimenta de mitos perdidos, de estórias inventadas, de desejos inacabados. Talvez sejamos, mau-grado as novas eras que despontam, os últimos moicanos de uma espécie à beira da extinção. Somos, por essa razão, os passageiros da grande cidade para quem, o fascínio e o medo formam a dupla eficaz contra o pecado original da monotonia. Por isso, ainda que por vezes e somente em pensamento, tentamos resistir à lenta hibernação dos nossos infindáveis quotidianos.
E assim, um dia, na cidade nocturna debruçados ou não sobre o Tejo, irrompe da nossa pele o insuportável chamamento da mudança.
Metemos na bagagem o rótulo da despedida, e eis-nos, uma vez mais, filhos de parte incerta.
Atravessamos o oceano e chegamos no tempo de um voo, a terras de Cabo Verde. Contam-se fábulas verdadeiras, de quando por cá, as paragens eram obrigatórias e havia verdura nos campos e serenidade no mar. Mas isso foi há muitos séculos, quando o Sahel ensaiava ainda os primeiros passos na longa caminhada do deserto. Agora é a aridez das montanhas que viola o espaço sagrado do mar.
Fotografo-te a cidade ao anoitecer. Na fotografia, cor de sépia, resta a bruma e o nevoeiro do dia que vai nascer. Nem florestas, nem sons estranhos saídos do fim da noite, vêm perturbar a memória do nosso desassossego.
Não me perguntes pelo cheiro a maresia. Dir-te-ei de um outro cheiro mais intenso e violento que se desprende da força dos gestos e da ternura dos corpos.
Não me perguntes pelo cheiro das mangueiras, das papaeiras e das acácias. Dir-te-ei daquele outro que nasce dum som e dum ritmo martirizados pela saudade.
Não me perguntes pelo cheiro da terra molhada. Há muito que o vento sepultou a chuva para o sono longínquo e quase eterno de utópicos paraísos perdidos.
Porque é de outra África que te falo. Não a África dos massai, das savanas ou de Pollack. Esta traz ainda nas entranhas, o espaço acorrentado dos escravos, porões de barcos negreiros lançados ao mar carregados de angústia e pesadelo. Esta outra é o lugar perdido, terra de ninguém e de todo o mundo, ilha de andarilhos e de poetas errantes.
Condenada à insularidade obrigatória, vê cruzarem-se no ar, o voo da ave migratória e o voo do avião, mito redentor de chegadas e partidas.
Porque é de terra de passagem que se trata. Daqui passa-se para múltiplos lugares, os pés hesitantes em ávidos continentes, as raízes mergulhadas em portos de regresso.
À minha frente erguem-se, agressivos, os cumes geométricos da Ilha do Fogo. É um monótono fim de tarde na Cidade da Praia.
Aí, do outro lado do mar, a esta mesma hora, vive-se o rescaldo da nossa grande festa. Doze anos já passaram sobre nós.
Perguntamo-nos de tanta alegria, de tanto desatino, da nossa tão velha comoção.
Contudo, ainda sobrevivem pelas ruas os hinos porta-bandeiras do país de além-Tejo.
Talvez por isso mesmo, as nossas partidas apostem sempre em terras mais a sul.
E porque não, se foi aqui, "no imenso sul", que tudo começou.
MF, Cidade da Praia, 25 de Abril de 1986.
Foto de Maria Freire.

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