segunda-feira, 13 de março de 2017

Eis as Mulheres de Atenas, hoje!
"(...)
7. Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
23. A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua."
A Terceira Miséria, Relógio d’ Água, 2012], Hélia Correia.
Electra
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos
dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada.
Sophia.
São José Lapa (Helena) , O Rancor de Hélia Correia
Aspasia Papathanasiou (Electra), Sophia de Mello Breyner.
Entre Bissau e Ziguinchor
Corria o mês de Dezembro de 80, lá para as bandas do Futa-Djalon.
Não tinha arroz, nem feijão, mas tinha um namorado e uma mota Yamaha, da qual já nem recordo a cilindrada.
Vivia-se a urgência da partida e o Senegal ficava ali tão perto. E assim, em pleno Natal equatorial, destilados e amolecidos, partimos do 24 de Setembro em Bissau, rumo a São Domingos na fronteira.
Entre as tabancas de Safim e de Bula e os areais e palmares do Cacheu, corríamos para apanhar a jangada, sem horário, que nos levaria a São Domingos.
E, de repente, a noite caiu como só em África sabe cair. Rápida, momentânea, implacável. Corria o tempo do fanado. Entre a escuridão e os gritos dos iniciados para a circuncisão, escondidos entre os palmares, ficava terra de nenhures. A jangada, noite cerrada, já partira ou nem chegara.
Entre o Cacheu e Ignoré, num declive invisível, a mota desgovernou-se, o condutor partiu um pé e a pendura que só sabia conduzir automóveis, ficou-se entre o medo e a estupefacção.
O homem era corajoso e lá conseguimos chegar a São Domingos, famintos, doridos e com a fronteira fechada para entrar no Senegal.
Como nos arrastámos até Ziguinchor já se me esvaiu da memória.
Mas por lá ficámos cinco dias a "entalar" o pé e a "eixar" a mota.
O regresso foi em furgão entre cabras, vasilhas de vinho de cajú e sobas das tabancas.
E foi assim que conheci o Senegal.
Dakar, nem por perto lá ficou.


Mensagem da ilha distante para um amigo ausente.
"avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da paz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva de um bicho estelar
e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar"
Al Berto, Três Cartas da Memória das Índias".
Quando parti, pediste-me para te trazer, na viagem de regresso, um cheiro a sol, a maresia, a suave brisa do mar.
Meu amigo, vivemos ainda num tempo em que a nossa memória se alimenta de mitos perdidos, de estórias inventadas, de desejos inacabados. Talvez sejamos, mau-grado as novas eras que despontam, os últimos moicanos de uma espécie à beira da extinção. Somos, por essa razão, os passageiros da grande cidade para quem, o fascínio e o medo formam a dupla eficaz contra o pecado original da monotonia. Por isso, ainda que por vezes e somente em pensamento, tentamos resistir à lenta hibernação dos nossos infindáveis quotidianos.
E assim, um dia, na cidade nocturna debruçados ou não sobre o Tejo, irrompe da nossa pele o insuportável chamamento da mudança.
Metemos na bagagem o rótulo da despedida, e eis-nos, uma vez mais, filhos de parte incerta.
Atravessamos o oceano e chegamos no tempo de um voo, a terras de Cabo Verde. Contam-se fábulas verdadeiras, de quando por cá, as paragens eram obrigatórias e havia verdura nos campos e serenidade no mar. Mas isso foi há muitos séculos, quando o Sahel ensaiava ainda os primeiros passos na longa caminhada do deserto. Agora é a aridez das montanhas que viola o espaço sagrado do mar.
Fotografo-te a cidade ao anoitecer. Na fotografia, cor de sépia, resta a bruma e o nevoeiro do dia que vai nascer. Nem florestas, nem sons estranhos saídos do fim da noite, vêm perturbar a memória do nosso desassossego.
Não me perguntes pelo cheiro a maresia. Dir-te-ei de um outro cheiro mais intenso e violento que se desprende da força dos gestos e da ternura dos corpos.
Não me perguntes pelo cheiro das mangueiras, das papaeiras e das acácias. Dir-te-ei daquele outro que nasce dum som e dum ritmo martirizados pela saudade.
Não me perguntes pelo cheiro da terra molhada. Há muito que o vento sepultou a chuva para o sono longínquo e quase eterno de utópicos paraísos perdidos.
Porque é de outra África que te falo. Não a África dos massai, das savanas ou de Pollack. Esta traz ainda nas entranhas, o espaço acorrentado dos escravos, porões de barcos negreiros lançados ao mar carregados de angústia e pesadelo. Esta outra é o lugar perdido, terra de ninguém e de todo o mundo, ilha de andarilhos e de poetas errantes.
Condenada à insularidade obrigatória, vê cruzarem-se no ar, o voo da ave migratória e o voo do avião, mito redentor de chegadas e partidas.
Porque é de terra de passagem que se trata. Daqui passa-se para múltiplos lugares, os pés hesitantes em ávidos continentes, as raízes mergulhadas em portos de regresso.
À minha frente erguem-se, agressivos, os cumes geométricos da Ilha do Fogo. É um monótono fim de tarde na Cidade da Praia.
Aí, do outro lado do mar, a esta mesma hora, vive-se o rescaldo da nossa grande festa. Doze anos já passaram sobre nós.
Perguntamo-nos de tanta alegria, de tanto desatino, da nossa tão velha comoção.
Contudo, ainda sobrevivem pelas ruas os hinos porta-bandeiras do país de além-Tejo.
Talvez por isso mesmo, as nossas partidas apostem sempre em terras mais a sul.
E porque não, se foi aqui, "no imenso sul", que tudo começou.
MF, Cidade da Praia, 25 de Abril de 1986.
Foto de Maria Freire.