sábado, 3 de junho de 2017

Há um ano. Mas a infâmia mantem-se e medra no silêncio.
Aqui fica.
Acerca da infâmia
Quer queiramos quer não, as redes sociais têm, nos tempos que correm, um papel charneira, na divulgação e no ataque a situações de comprovado atentado à liberdade de pensar e de agir, até porque, ao contrário da grande maioria da comunicação social, escrita ou televisiva, não se encontram submetidas à compulsividade ideológica que, cada vez mais, caracteriza esta.
Se uma rede social é um veículo de socialização, de partilha de eventos, mais ou menos pessoais, ela é sobretudo, na minha óptica, uma arma fundamental para a divulgação e permuta de ideais culturais, sociais e políticos que urge preservar. Porque a história-acontecimento versus acontecimento-história, de Marc Férro é uma realidade ineludível.
Vem isto a propósito do vídeo da SIC, amplamente divulgado nas redes sociais, hoje.
Há manchas, há nódoas, cada vez mais expostas sem vergonha, sem pudor, na informação. Mas este caso ultrapassa a vergonha e a nódoa. É um ultraje, um atentado à dignidade humana, uma negação total dos valores e dos direitos que o ser humano e, neste caso específico a Mulher, alcançou com luta e dor. É uma subversão dos valores fundamentais, uma apologia da passividade, da subserviência, do sofrimento. Enlameia, rebaixa uma camada mais fragilizada da sociedade, remetendo-a para o limbo da ignorância e do obscurantismo.
Só a denúncia não basta. É nosso dever, nossa obrigação, exigir que a ERC tome, com urgência uma posição, clara e inequívoca, em relação ao programa, ao canal televisivo que o emite e à mulher arrogante e perigosa que o veicula.
O que está em causa não é tão só uma questão no feminino. É, sobretudo uma violação da identidade, uma apologia do opressor, uma aniquilação do homem enquanto ser pensante e livre.





O programa “A Vida nas Cartas – O Dilema” há muito que ocupa as primeiras horas de emissão da SIC. Mas se antes era conduzido em exclusivo por Maria Helena Martins, o espaço é agora partilhado com Carla Duarte, especialista em Tarot de Marselha.


Foi justamente num episódio conduzido por esta, no passado dia 2, que um dos telefonemas chegou de uma mulher, que se identificou como Maria da Glória, de 64 anos, e que pretendia saber mais sobre a sua saúde, mas também descobrir se o seu marido teria outra mulher.
Não é preciso muito tempo de conversa para perceber que Maria da Glória é vítima de violência doméstica há 40 anos, de um marido que bebe. Perante isto, Carla Duarte lê nas cartas que o marido desta mulher não tem outra mulher, até porque aquilo que procura não é uma mulher, mas uma figura maternal. Justamente por isto, Maria da Glória deve ser essa mãe e nutrir o marido, ter paciência, e não discutir nem procurar conflitos. Até porque “quando damos amor recebemos amor, mesmo que seja em menor quantidade, e quando damos violência recebemos violência”, ouve-se no programa da SIC. “Mime o seu marido”, remata a apresentadora.
Este vídeo está já a circular pela internet e com ele uma onda de indignação em relação à reação da apresentadora que não aconselha a que seja contactada a APAV. A SIC não emitiu qualquer comunicado sobre a situação.




terça-feira, 23 de maio de 2017

No cais do tempo.

Para quem sabe e nem por aqui passa.
Encontrei-te no cais do tempo.
O medronheiro criou as suas hastes
E emaranhou-as
na loucura dos dias
Isa 23-05-2016

Foto de Maria Freire.

sexta-feira, 19 de maio de 2017


A ainda outras viagens...

"Uma parte da minha vida tem sido passada em viagens. Eu, que que tenho um medo visceral de andar de avião, suportei (e ainda suporto), toda a espécie de sintomas fisiológicos de cada vez que se avizinhava (avizinha) uma partida ou uma chegada.
De todas, a viagem ao Egipto foi das que mais me marcou. Foi em 2008, na EgypthAir. Ainda tinha os cabelos claros e o meu corpo suportava o impacto das marés. Lembrei-me hoje dela, por via da tragédia. 
Mais uma, menos uma e, um dia destes, damos por nós calcinados, indiferentes, acomodados pelas rotinas trágicas do quotidiano.
Os nossos olhos, o nosso corpo, o nosso espírito banalizam, dia após dia, a fúria, a raiva, a dor. E somos nós, inteiros, ou em pedaços que procuramos o medo com medo de o perder."Ver Mais

 19 de Maio, 2016.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Eis as Mulheres de Atenas, hoje!
"(...)
7. Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
23. A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua."
A Terceira Miséria, Relógio d’ Água, 2012], Hélia Correia.
Electra
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos
dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada.
Sophia.
São José Lapa (Helena) , O Rancor de Hélia Correia
Aspasia Papathanasiou (Electra), Sophia de Mello Breyner.
Entre Bissau e Ziguinchor
Corria o mês de Dezembro de 80, lá para as bandas do Futa-Djalon.
Não tinha arroz, nem feijão, mas tinha um namorado e uma mota Yamaha, da qual já nem recordo a cilindrada.
Vivia-se a urgência da partida e o Senegal ficava ali tão perto. E assim, em pleno Natal equatorial, destilados e amolecidos, partimos do 24 de Setembro em Bissau, rumo a São Domingos na fronteira.
Entre as tabancas de Safim e de Bula e os areais e palmares do Cacheu, corríamos para apanhar a jangada, sem horário, que nos levaria a São Domingos.
E, de repente, a noite caiu como só em África sabe cair. Rápida, momentânea, implacável. Corria o tempo do fanado. Entre a escuridão e os gritos dos iniciados para a circuncisão, escondidos entre os palmares, ficava terra de nenhures. A jangada, noite cerrada, já partira ou nem chegara.
Entre o Cacheu e Ignoré, num declive invisível, a mota desgovernou-se, o condutor partiu um pé e a pendura que só sabia conduzir automóveis, ficou-se entre o medo e a estupefacção.
O homem era corajoso e lá conseguimos chegar a São Domingos, famintos, doridos e com a fronteira fechada para entrar no Senegal.
Como nos arrastámos até Ziguinchor já se me esvaiu da memória.
Mas por lá ficámos cinco dias a "entalar" o pé e a "eixar" a mota.
O regresso foi em furgão entre cabras, vasilhas de vinho de cajú e sobas das tabancas.
E foi assim que conheci o Senegal.
Dakar, nem por perto lá ficou.


Mensagem da ilha distante para um amigo ausente.
"avançarás pelo mar dentro
ferido por outros naufrágios imperceptíveis
descansarás
nas areias aveludadas da paz dalgum rio sagrado
e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva de um bicho estelar
e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar"
Al Berto, Três Cartas da Memória das Índias".
Quando parti, pediste-me para te trazer, na viagem de regresso, um cheiro a sol, a maresia, a suave brisa do mar.
Meu amigo, vivemos ainda num tempo em que a nossa memória se alimenta de mitos perdidos, de estórias inventadas, de desejos inacabados. Talvez sejamos, mau-grado as novas eras que despontam, os últimos moicanos de uma espécie à beira da extinção. Somos, por essa razão, os passageiros da grande cidade para quem, o fascínio e o medo formam a dupla eficaz contra o pecado original da monotonia. Por isso, ainda que por vezes e somente em pensamento, tentamos resistir à lenta hibernação dos nossos infindáveis quotidianos.
E assim, um dia, na cidade nocturna debruçados ou não sobre o Tejo, irrompe da nossa pele o insuportável chamamento da mudança.
Metemos na bagagem o rótulo da despedida, e eis-nos, uma vez mais, filhos de parte incerta.
Atravessamos o oceano e chegamos no tempo de um voo, a terras de Cabo Verde. Contam-se fábulas verdadeiras, de quando por cá, as paragens eram obrigatórias e havia verdura nos campos e serenidade no mar. Mas isso foi há muitos séculos, quando o Sahel ensaiava ainda os primeiros passos na longa caminhada do deserto. Agora é a aridez das montanhas que viola o espaço sagrado do mar.
Fotografo-te a cidade ao anoitecer. Na fotografia, cor de sépia, resta a bruma e o nevoeiro do dia que vai nascer. Nem florestas, nem sons estranhos saídos do fim da noite, vêm perturbar a memória do nosso desassossego.
Não me perguntes pelo cheiro a maresia. Dir-te-ei de um outro cheiro mais intenso e violento que se desprende da força dos gestos e da ternura dos corpos.
Não me perguntes pelo cheiro das mangueiras, das papaeiras e das acácias. Dir-te-ei daquele outro que nasce dum som e dum ritmo martirizados pela saudade.
Não me perguntes pelo cheiro da terra molhada. Há muito que o vento sepultou a chuva para o sono longínquo e quase eterno de utópicos paraísos perdidos.
Porque é de outra África que te falo. Não a África dos massai, das savanas ou de Pollack. Esta traz ainda nas entranhas, o espaço acorrentado dos escravos, porões de barcos negreiros lançados ao mar carregados de angústia e pesadelo. Esta outra é o lugar perdido, terra de ninguém e de todo o mundo, ilha de andarilhos e de poetas errantes.
Condenada à insularidade obrigatória, vê cruzarem-se no ar, o voo da ave migratória e o voo do avião, mito redentor de chegadas e partidas.
Porque é de terra de passagem que se trata. Daqui passa-se para múltiplos lugares, os pés hesitantes em ávidos continentes, as raízes mergulhadas em portos de regresso.
À minha frente erguem-se, agressivos, os cumes geométricos da Ilha do Fogo. É um monótono fim de tarde na Cidade da Praia.
Aí, do outro lado do mar, a esta mesma hora, vive-se o rescaldo da nossa grande festa. Doze anos já passaram sobre nós.
Perguntamo-nos de tanta alegria, de tanto desatino, da nossa tão velha comoção.
Contudo, ainda sobrevivem pelas ruas os hinos porta-bandeiras do país de além-Tejo.
Talvez por isso mesmo, as nossas partidas apostem sempre em terras mais a sul.
E porque não, se foi aqui, "no imenso sul", que tudo começou.
MF, Cidade da Praia, 25 de Abril de 1986.
Foto de Maria Freire.