Três poemas para três elementos
A água - flutuações mare infindus
Espectante, o espectro
espalhava sob o espelho
a sua imagem difusa.
Caronte, atravessado pela dúvida,
deixou a barca em porto seguro.
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| Gaspar David Friedrich, Viajante junto ao mar de névoa, 1815. |
O rio carregava
a bruma do tempo
num pesadelo de ondas.
O homem solitário, costas viradas a terra,
mistura-se com as profundezas do abismo.
Serenamente, ou não,
os mundos fluidos e etéreos,
absorvem-se e confundem-se.
Penhascos, endurecidos pelo vento,
lançam sementes,
desconstroem montanhas,
salvam o mar.
A tempestade retoma o curso,
ácido e selvagem,
no horizonte disperso.
E ele permanece,
viajante, sem rumo,
viajante, sem norte,
corpo flutuante,
no mar
Isa, Lx, Abril 2014
As pedras - transmutações
![]() |
| Johannes Vermeer, A pesagem das pérolas, 1664 |
As pérolas, são cidades abertas,
por onde irradia
a chama do olhar.
Nacaradas, barrocas, imperfeitas,
disfarçam, com saberes, camaleónicos,
a pureza de seus interiores.
Ilusões ópticas,
remetem os sentidos
para os espaços fugazes do amanhecer.
Na sua forma translúcida e serena,
enganam a opacidade dos dias
e recolhem as sementes orvalhadas do anoitecer.
Abrem-se e fecham-se,
absorvendo círculos imperfeitos,
fugazes, movediços.
Dilaceram-se, em fim de vida,
nas areias espumosas das marés
Isa, Lx, Abril 2014
As árvores - transgressões
| Vincent Van Gogh, A noite estrelada, 1889 |
São tantas as tonalidades de verde que observo,
sentada e ausente,
virada para o movimento
que dilacera as copas das árvores
É este, o momento, quase imperceptivel,
entre o eu e o não eu,
captado pelo sopro do vento,
pelo olhar difuso,
pela carne em sobressalto.
Nervos, músculos, ossos, pele,
respondem, compassadamente,
ao agitar telúrico do tempo.
De tanto verde, os olhos magoam
a claridade do dia.
A noite, serena, total, libertária,
repõe a limpidez dos corpos.
Isa, Lx, Abril, 2014


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