Hoje, dia 24 de Março, morreu o poeta maior da língua portuguesa contemporânea. O poeta que recusou sempre as falácias do poder e que escolheu a vida na verticalidade do ser. O poder, como sempre despudorado, veio falar da grandeza da poesia. Cúmulo da ironia: vomita, o poder, palavras cujo significado desconhece. Pois refiro-me ao poder acéfalo, inculto, analfabeto, boçal. Deixai-o na sua pequenez e na sua mesquinhez.
De ti, maior, ficam as palavras, os amigos e "um lugar de silêncio" que escolheste.
AOS AMIGOS
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de
cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
_ Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio
De paixão.
Lugar, Poemas, Ed. Guimarães Editores, 1962.
IV
Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis
irrespiráveis
montes, e ouço muitas vozes por dentro
e as estrelas se desdobram à volta, então.
E já não sei como posso imaginar por baixo
das traves da cabeça por baixo
das traves rijas do céu, quando então.
Não como não posso fechar em duas conchas
essa pérola, essa dureza
preciosa e feroz
envolta
pelo frio quando já não sei pensar.
Irrespiràvelmente como então.
Quando já nada sei menos ser o mais puro
dos cantores que pararam diante dos montes direitos
abrasados. Dos que se calaram. Dos
cantores.
O mais puro dos cantores fulminados.
quando já não sei falar, e acabo.
quando então irrespiràvelmente puro
por este lado, por aquele, por outro mais novo
lado. Quando digo: não sei.
E os montes compridos estão para cima e eu
em baixo irrespiràvelmente digo: não sei como:
pensar, respirar, dizer, saber.
Então irrespiràvelmente quando puro e não
sei. E acabo.
Lugar, Poemas, pp. 67, 68 Ed. Guimarães Editores, 1962.


