O Deus abandona Marco António
Para a Bebiana:
Relendo o Quarteto de Alexandria das nossas velhas cumplicidades, ergue-se a memória constante do velho bardo da cidade, aquele que, exilado nas visões e nas vagabundagens de Alexandria nela se deixou viver por não saber viver noutro sítio (Jorge de Sena).
Constantino Cavafy, nasceu e morreu em Alexandria (1863-1933). Profundamente marcado pela cultura grega helenística, foi mais do que o poeta do amor, o poeta da obsessão do desejo.
Jorge de Sena, traduziu, entre 1952 e 1969, metade dos 187 poemas conhecidos de Cavafy. São os "90 e mais quatro poemas", publicados pela Editorial Inova, na colecção As mãos e os frutos
O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO
Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos-
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada-, não te vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de
uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.
1911


