sábado, 23 de maio de 2015

O Deus abandona Marco António


Para a Bebiana:

Relendo o Quarteto de Alexandria das nossas velhas cumplicidades, ergue-se a memória constante do velho bardo da cidade, aquele que, exilado nas visões e nas vagabundagens de Alexandria nela se deixou viver por não saber viver noutro sítio (Jorge de Sena)
Constantino Cavafy, nasceu e morreu em Alexandria (1863-1933). Profundamente marcado pela cultura grega helenística, foi mais do que o poeta do amor, o poeta da obsessão do desejo.
Jorge de Sena, traduziu, entre 1952 e 1969, metade dos 187 poemas conhecidos de Cavafy. São os "90 e mais quatro poemas", publicados pela Editorial Inova, na colecção As mãos e os frutos


O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO

Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos-
a tua fortuna que desiste, as tuas obras 
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada-, não te vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de
                                                     uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.
                                                                                                      1911



quarta-feira, 22 de abril de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Memórias dum tempo oblíquo 15-04-2014

Há tanto tempo que não escrevo. Será que a minha cabeça, o meu corpo, os meus sentidos, retomam o gesto ancestral e reflectido, que se espelha no tempo?
Retomo cheiros e memórias, passados tantos anos, como se o momento precedesse o lugar onde cristalizam os afectos. Porque de afectos já pouco se fala e, ainda menos, se sentem.
Içados em mastros de indiferença seguimos, incapazes de movimentar o sonho. Porque de tempos de pesadelos está o nosso tempo feito.
As brumas reflectem-se em horizontes incompletos, mordazes e insatisfeitos, e os nossos corpos acomodam-se às incertezas do momento. Momentos que têm gravados as garras dos abutres e que se colam à nossa pele como estigmas de pesadelos. Com eles dormimos e acordamos cansados, flácidos, moribundos. E já nem o riso nos desperta o olhar!
Esquece-se o riso, esquece-se a esperança, esquece-se o aroma do instante feito de olhares cúmplices, reflexos dos sentidos.
Para quando o tempo em o olhar voa satisfeito, livre e desperto?

Isa 

terça-feira, 24 de março de 2015

À memória de Herberto Helder


Hoje, dia 24 de Março, morreu o poeta maior da língua portuguesa contemporânea. O poeta que recusou sempre as falácias do poder e que escolheu a vida na verticalidade do ser. O poder, como sempre despudorado, veio  falar da grandeza da poesia. Cúmulo da ironia: vomita, o poder, palavras cujo significado desconhece. Pois refiro-me ao poder acéfalo, inculto, analfabeto, boçal. Deixai-o na sua pequenez e na sua mesquinhez.
De ti, maior, ficam as palavras, os amigos e "um lugar de silêncio" que escolheste.


AOS AMIGOS

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de
             cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
_ Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio
De paixão.

             Lugar, Poemas, Ed. Guimarães Editores, 1962.


IV

Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis
            irrespiráveis
montes, e ouço muitas vozes por dentro
e as estrelas se desdobram à volta, então.
E já não sei como posso imaginar por baixo
das traves da cabeça por baixo
das traves rijas do céu, quando então.
Não como não posso fechar em duas conchas
essa pérola, essa dureza
preciosa e feroz
envolta 
pelo frio quando já não sei pensar.
Irrespiràvelmente como então.
Quando já nada sei menos ser o mais puro
dos cantores que pararam diante dos montes direitos
abrasados. Dos que se calaram. Dos
cantores.
O mais puro dos cantores fulminados.
quando já não sei falar, e acabo.
quando então irrespiràvelmente puro
por este lado, por aquele, por outro mais novo 
lado. Quando digo: não sei.
E os montes compridos estão para cima e eu
em baixo irrespiràvelmente digo: não sei como:
pensar, respirar, dizer, saber.
Então irrespiràvelmente quando puro e não
sei. E acabo.

Lugar, Poemas, pp. 67, 68  Ed. Guimarães Editores, 1962.




domingo, 15 de março de 2015

Maria Bethânia - Sonho Impossível - Fernando Pessoa



Fernando Pessoa versus Maria Bethânia

Somente para ouvir em paz!

sábado, 14 de março de 2015



Três poemas para três elementos

A água - flutuações                   mare infindus

Espectante, o espectro
espalhava sob o espelho
a sua imagem difusa.
Caronte, atravessado pela dúvida, 
deixou a barca em porto seguro.
Gaspar David Friedrich, Viajante junto ao mar de névoa, 1815.
O rio carregava
a bruma do tempo
num pesadelo de ondas.
O homem solitário, costas viradas a terra,
mistura-se com as profundezas do abismo.
Serenamente, ou não,
os mundos fluidos e etéreos,
absorvem-se e confundem-se.
Penhascos, endurecidos pelo vento,
lançam sementes,
desconstroem montanhas,
salvam o mar.
A tempestade retoma o curso,
ácido e selvagem,
no horizonte disperso.

E ele permanece, 
viajante, sem rumo,
viajante, sem norte,
corpo flutuante,
no mar

Isa, Lx, Abril 2014


As pedras - transmutações


Johannes Vermeer, A pesagem das pérolas, 1664
As pérolas, são cidades abertas,
por onde irradia
a chama do olhar.
Nacaradas, barrocas, imperfeitas,
disfarçam, com saberes, camaleónicos,
a pureza de seus interiores.
Ilusões ópticas,
remetem os sentidos
para os espaços fugazes do amanhecer.

Na sua forma translúcida e serena,
enganam a opacidade dos dias
e recolhem as sementes orvalhadas do anoitecer.

Abrem-se e fecham-se,
absorvendo círculos imperfeitos,
fugazes, movediços.

Dilaceram-se, em fim de vida,
nas areias espumosas das marés

Isa, Lx, Abril 2014


As árvores - transgressões


Resultado de imagem para van gogh noite estrelada
Vincent Van Gogh, A noite estrelada, 1889
São tantas as tonalidades de verde que observo,
sentada e ausente,
virada para o movimento
que dilacera as copas das árvores
É este, o momento, quase imperceptivel,
entre o eu e o não eu,
captado pelo sopro do vento,
pelo olhar difuso,
pela carne em sobressalto.
Nervos, músculos, ossos, pele,
respondem, compassadamente,
ao agitar telúrico do tempo.
De tanto verde, os olhos magoam
a claridade do dia.
A noite, serena, total, libertária,
repõe a limpidez dos corpos.

Isa, Lx, Abril, 2014 




  

A invenção do Amor e o beijo de Gustav Klimt




A INVENÇÃO DO AMOR

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na  vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe, poeta caboverdiano (1925-1964)

sexta-feira, 13 de março de 2015

Partiste, minha amiga, minha companheira, minha menina. Foram quinze anos de felicidade que tu nos deste. Ouvirei, durante muito tempo, a tua voz. Sentirei, sempre, a tua presença. Obrigada pelo amor que nos ofereceste. Não é um adeus Princesa. É, um dorme bem, minha pequenina.
10 de Março de 2015