quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Memórias 4
Lisboa, 5/4/1984.
Para quem sabe.

"Iremos carregados de solidão procurar um espaço aberto à nossa memória. 
Haverá rios e ilhas de silêncio. Haverá bancos de areia que sopram sufocantes, lá longe, das profundezas do deserto. Haverá oásis de paraísos perdidos, nessa África feita ira, pesadelo e alegria. Nessa África tão exacta, tão plena, tão real, que não deixa espaço para a angústia obscena deste nosso pequeno e escasso momento europeu e ocidental.
Falemos de ilhas, de mares, de oceanos repletos de distância e de infinito, mas falemos, sobretudo, do cheiro doce, puro, ácido e violento da terra. Da terra que ferve de húmus animal. Da terra que se desventra e se abre e sucumbe ao peso fálico das raízes e dos caules; corpo morno, seiva viva, que se desvirgina ao menor tremor de cada passo.
Falemos da terra e da água, desses momentos religiosos e secretos, desses encontros clandestinos e vadios que crescem flutuantes, dolorosos e obscuros no cheiro velho e sábio da terra molhada.
E eis aqui os nossos corpos: o caule frágil, inseguro e breve que do outro lado do mar só fixou o sonho vago e corredio, misto de alegria e de tristeza, leito de ternura e de calor onde se deita, penetra e afunda a raiz profunda, forte e vigorosa criada em pleno estio, lá sempre onde nunca faz inverno, e que a este lado do mar só vem deixar o olhar triste e cansado.
Deste encontro de dois pólos, nascem o frio e o calor, os corpos ardentes e suados que pelas noites fora vão acendendo fogos-fátuos, fogueiras de palavras e de sexo, hímenes loucos de prazer, espermas de dor e solidão. E, pelo meio, ficam as forças incontroláveis que nos unem e repelem: essas metades de espaço, esses tempos incompletos, esse quotidiano nunca partilhado, mas sempre consentido.
Uma relação feita de verbos imperfeitos, de pretéritos além, de presentes aqui, de futuros quem sabe.
Encontros de ilha e de continente que do fogo e do ar, dos caules e das raízes retêm o sémen e o transforma em seiva renovada.
É este hino de palavras e de ternura que te quero deixar, nesta breve passagem pelo rio de partida.
Agora que brevemente retomarás o percurso de chegada, quero que saibas que sempre estou contigo, como diriam os teus patrícios, lá mais para o sul , do outro lado de um outro rio.