sábado, 21 de abril de 2018

De como a memória pode ser escorregadia e obscura.

Corria o ano de 65/66. Tinha deixado os cárceres inquisitoriais do Filipa de Lencastre para respirar a liberdade irreverente do Alto de Santo Amaro.
O autocarro 22 era o nosso transporte colectivo e afectivo e as turmas eram mistas, insubmissas e criativas.
Hoje, 53 anos depois, continuamos a confraternizar com regularidade, e de cada vez aparece um elemento "novo" para nos avivar a memória.
Desta vez foi o professor de moral, Padre Janela, que trouxe como "oferenda" as cadernetas do 6º e 7º anos das turmas do D. João de Castro.

Olhei para esta folha de caderneta e perguntei à minha outra metade: "Alembras-te" de ti assim, rapariga?. Ao que a outra metade respondeu: "Não. Népias. Coisa nenhuma."
Era um tempo em que íamos à cabeleireira fazer a "mise en plis" para o retrato "à la minute" num estúdio fotográfico a preceito. A imagem tinha de transmitir uma força poderosa e respeitadora para impressionar os mestres. A caligrafia, certinha e certeira de vogais e consoantes alinhadas. Mas, contra-corrente, diga-se em abono da verdade, que éramos muito pouco alinhados lá pelo alto da Ajuda.
Tínhamos então 16 anos e o Maio de 68 estava em marcha, mas nós ainda não sabíamos!

16/04/2018  "De como a memória pode ser escorregadia e obscura.

Corria o ano de 65/66. Tinha deixado os cárceres inquisitoriais do Filipa de Lencastre para respirar a liberdade irreverente do Alto de Santo Amaro.
O autocarro 22 era o nosso transporte colectivo e afectivo e as turmas eram mistas, insubmissas e criativas.
Hoje, 53 anos depois, continuamos a confraternizar com regularidade, e de cada vez aparece um elemento "novo" para nos avivar a memória.
Desta vez foi o professor de moral, Padre Janela, que trouxe como "oferenda" as cadernetas do 6º e 7º anos das turmas do D. João de Castro.
 
Olhei para esta folha de caderneta e perguntei à minha outra metade: "Alembras-te" de ti assim, rapariga?. Ao que a outra metade respondeu: "Não. Népias. Coisa nenhuma."
Era um tempo em que íamos à cabeleireira fazer a "mise en plis" para o retrato "à la minute" num estúdio fotográfico a preceito. A imagem tinha de transmitir uma força poderosa e respeitadora para impressionar os mestres. A caligrafia, certinha e certeira de vogais e consoantes alinhadas. Mas, contra-corrente, diga-se em abono da verdade, que éramos muito pouco alinhados lá pelo alto da Ajuda. 
 Tínhamos então 16 anos e o Maio de 68 estava em marcha, mas nós ainda não sabíamos!"
Com 24 anos em 74 por onde corria o tempo.

Já deixara para trás a faculdade de Letras e as coutadas feudais de alguns professores de pendão e caldeira. Já acalmara o desassossego das correrias em fuga à polícia de choque, alameda da universidade acima, alameda da universidade abaixo. 
Professora ao "serviço da primavera marcelista" voava diariamente para Vila Franca de Xira, cuja terra já era vermelha, ainda que eu "militasse" então, no horizonte é vermelho e nas lides cineclubistas, com a aguerrida esperança de atravessar o Iangtzé a nado ao lado do homem do leme que acreditava ser o timoneiro do destino
Mas já andarilhava e muito. Dez dias antes do "dia inicial inteiro e limpo", voltava de Paris, agarrada ao meu mini e pendurada num namorado em fim de escala que despejei com um até nunca, lá para os lados da Estrela. Deste não consta que tenha havido depois do adeus.
Faltavam oito dias e já pairava no ar o cheiro a cravos e a esperança. 
E foi numa 5ª feira que renascemos, "como casa limpa/ como chão varrido/ como porta aberta/ como puro início/ como tempo novo".
E a rua tornou-se, então, o nosso local sagrado da alegria."Com 24 anos em 74 por onde corria o tempo.
Já deixara para trás a faculdade de Letras e as coutadas feudais de alguns professores de pendão e caldeira. Já acalmara o desassossego das correrias em fuga à polícia de choque, alameda da universidade acima, alameda da universidade abaixo. 
Professora ao "serviço da primavera marcelista" voava diariamente para Vila Franca de Xira, cuja terra já era vermelha, ainda que eu "militasse" então, no horizonte é vermelho e nas lides cineclubistas, com a aguerrida esperança de atravessar o Iangtzé a nado ao lado do homem do leme que acreditava ser o timoneiro do destino
Mas já andarilhava e muito. Dez dias antes do "dia inicial inteiro e limpo", voltava de Paris, agarrada ao meu mini e pendurada num namorado em fim de escala que despejei com um até nunca, lá para os lados da Estrela. Deste não consta  que tenha havido depois do adeus.
Faltavam oito dias  e já pairava no ar o cheiro a cravos e a esperança. 
E foi numa 5ª feira que renascemos, "como casa limpa/ como chão varrido/ como porta aberta/ como puro início/ como tempo novo".
E a rua tornou-se, então, o nosso local sagrado da alegria."

21-04-2018